terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FIM DO ANO


Dezembro. Acordo, descubro ainda estar vivo, porém fui esquecido! Tento recuperar o tempo perdido e ultrapasso o Fim de Ano: findo o ano, findou o ano. Feio e Bonito – convidados a abrir garrafas de espumoso – na Passagem de Ano.

EMBARAÇO

Em Fevereiro não há dia 30, passo a Março. Que faço? Uso o embaraço, formando um baraço...
Feio e Bonito, travam-se de razões, decidem fazer um duelo com pistolas de fulminantes.

O BOM E O BONITO

Abril. Ainda não escrevi, escrevo "O Bom E O Bonito"... Assim, como está escrito.

O BONITO E O FEIO

Maio. Duelo marcado para o pôr-do-sol, ao esconder-se o Sol, mudando do dia para a noite, tiros a rasgar o crepúsculo!

ESTÁ FEITO

Junho. O Feio desafiou o Bonito, as madrinhas batizaram os contendores. Diz-se ter sido por ciúmes, não se sabe.

FEITO ESTÁ

Julho. Feio está… o duelo todos os meses é adiado. Os contendores são já vítimas de gozo público, ficam amigos.

ALVEJAR A LUA

Agosto. Ninguém espera o duelo mas, os agora amigos, combinam defrontar-se. Toda a gente vem para a rua, vê-los alvejar a Lua.

LUA CHEIA

Setembro. A brincadeira passou a ser explorada pelo comércio, está marcado novo duelo para a Lua Cheia.

QUARTO CRESCENTE

Outubro. O comércio não olha a meios, é oferecido aos amigos Feio e Bonito o jantar. Antes, juntam-se para fazer um duelo publicitário, festeja-se o quarto crescente.

LUA NOVA

Novembro. Está nublado, chove, nada de mal acontece, a data da Lua Nova não deixa de ter o dia, bate tudo certo… 


http://manufatura.blogspot.pt/2014/01/data-valor.html - Feliz 2015! -

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Surpresa de Natal

O homem descuidado deixou entreaberta a porta de seu quarto enquanto tirava a roupa de Papai Noel. Seu filho, seis anos e bisbilhoteiro que s[o ele, boca aberta e cutucando o dente-de-leite mole, exclamou:

- Pai!

O homem esboçou uma explicação. Diria que era auxiliar do Papai Noel, representando ele naquela casa,  já que a agenda do bom velhinho era cheia. Ou, se não colasse, revelaria a verdade, que não havia Papai Noel coisa nenhuma. Assim, ao menos receberia o merecido crédito pela bicicleta que o garoto ganhara, paga com o seu dinheiro suado, sem mão-de-obra de elfos. Mas não foi preciso, a surpresa do menino era outra:

- Eu pensava que a barriga era falsa. Você tá gordo, pai!

Envergonhado, o pai só pode gargalhar:

- Ho ho ho!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Diversidade

imagem: CanonSX20

Tenho asco do que a mim é feio,
asco:
um bêbado trôpego
um dedo torto
no cabelo o laço mal feito
ou uma mulher sem jeito.
Existo logo e penso
que tudo ao meu redor é horror,
horror:
uma conversa fiada
uma frase mal dita
o sucesso das paradas
e a violência gratuita.
Santa minha ignorância!
Quando foi que deixei de entender
que o ser humano é diverso?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

o mar e sua ressaca tomaram conta do meu despertar
num embalo vibrante
todo movimento do instante se recupera

sou a entrega intrigante ao nada
à passagem morosa do tempo
no apego à inspiração e ao entendimento

às vezes uma folha cai e o mundo muda
às vezes uma pálpebra se fecha e a compreensão se matura

formam-se remansos macios no meu pensar
vou ao encontro do prisma no fundo
mergulho e entrega

o que reluz é abismo

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Rememorando 2014



        Esse ano de 2014 foi um ano de conquistas poéticas, inéditas, e que muito me alegraram. São elas:

     Duas poesias selecionadas nos concursos "Poesia no ônibus", de Gravataí e Santa Rosa, cidades gaúchas.
     Nesse concurso, poesias são selecionadas para serem transformadas em adesivos, colados nos ônibus que percorrem as ruas dessas cidades. Há uma iniciativa igual em Porto Alegre, mas lá não consegui ser classificado. Vejam os textos:


POEMINHA (SANTA ROSA)

Passatempo
Passarada
Passarela
Passageiro

Tudo passa
Só não passa
Teu passado em mim


TERCETO (GRAVATAÍ)

Jardineiro
Trabalho que me encanta:

Cabeleireiro de planta.


     Uma poesia selecionada no concurso "Pão e Poesia", promovido pela prefeitura de Blumenau (SC).
     Nesse concurso, poesias são impressas em sacos de pão, distribuídos em pontos diversos de Blumenau e de cidades ao seu redor, como Gaspar e Timbó.

     Veja qual foi: http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/5047288


     Outra conquista será a publicação de um conto meu, em uma antologia organizada na Alemanha. Mas, por enquanto, prefiro manter segredo. Aguardem notícias sobre esse livro em  2015...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Queria ser reconhecido nas ruas


Se inscreveu em todos os programas de tv que conhecia. Inventou fofocas sobre si mesmo. Tentou plantar notícias. Passou a esperar repórteres no centro da cidade, aqueles que entram ao vivo no jornal da hora do almoço. Pensou até em cometer um crime, quem sabe fizessem um retrato falado. Nada funcionou.
Tudo o que conseguiu foi rejeição.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Três epitáfios para túmulos de poucas lágrimas

I
"
...sempre amou para sempre. 
Para sempre enquanto. 
Foi assim todas as vezes
e sempre deixou de ser."


II
"O que foi, nunca deixa de ter sido."


III
 "A eternidade cabe em um momento:
O infinito entre zero e um"

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Desesperança


Haviam começado o namoro há pouco tempo. Sorrisos, bicos, charmes e birras; Apelidos fofos e juras de amor.
Foi quando ele escreveu a carta de despedida, com a certeza de que a entregaria em breve. Sabia até os motivos da separação, tinha tudo anotado, explicado, em palavras friamente selecionadas.
Nunca teve a chance de entregá-la.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Moderação



Enquanto falava sempre
as mesmas coisas
nada mudava

Mesmo sem acreditar
que alguma lei
a guiava

Ninguém desacredita
do que a própria
boca fala

Joakim Antonio


Imagem: Words I Never Said by Alessia-Izzo

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

LUA NOVA

Novembro. Está nublado, chove, nada de mal acontece, a data da Lua Nova não deixa de ter o dia, bate tudo certo…


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas


Acreditar nos seus sonhos, crer que o dia de amanhã será ainda melhor, achar que a humanidade está dando certo... Tudo isso está correto. Mas não se engane: o otimismo em excesso pode ser um problema. É importante ter os pés no chão, até porque no caminho há degraus. E quando a vaca estiver indo para o brejo, mais do que gritar “força, vaquinha, você consegue!”, pode ser útil chamar um guincho.

Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas é o livro de estreia do escritor mineiro Luís Fernando Amâncio. A obra é uma compilação de narrativas cômicas e trágicas - muitas vezes cômicas justamente por serem trágicas.

O autor foi selecionado pelo Prêmio LiteraCidade Jovem – 2014, na categoria Livro de Contos, o que lhe rendeu a publicação da obra.

Exemplares do livro podem ser adquiridos no link: 


Luís Fernando Amâncio

domingo, 23 de novembro de 2014

Caso perdido

imagem: Soda-Dreamer

Sou um só
para tudo:
choro e alegria,
amargura e êxtase,
solidão e solidão.

domingo, 16 de novembro de 2014

Memorial Isla Negra, de Neruda



Entrada do museu


Confesso que quase nada conhecia da vida e obra de Pablo Neruda. Em recente viagem ao Chile, pesquisando sobre pontos turísticos do país, descobri que o poeta é um dos grande ídolos nacionais, e suas três casas no país foram transformadas em museus: La Chascona, na capital; La Sebastiana, em Valparaízo e Isla Negra, no povoado homônimo, às margens do Pacífico. Esta última é talvez a mais popular, por abrigar os restos mortais de Neruda e de sua terceira esposa, Matilde Urrutia.





É difícil chegar a Isla Negra. Fomos de excursão, e é fácil reparar que inexistem placas nas rodovias indicando o lugar. Em resumo, só se sabe que está em Isla Negra quando já estamos lá.

Pagamos eu e minha esposa Mônica 10000 pesos para a entrada, o que equivale a uns 45 reais. Todos os turistas recebem um aúdioguia no idioma de sua preferência e faz o percurso pela casa e pelo terreno por conta própria.




Ao final do passeio, chega-se a uma lojinha, com vários produtos temáticos a Neruda. Estão lá seus livros e tanmbém livros de outros autores que tratam de sua obra. Além disso, também se encontram camisetas e artesanato. Comprei um livreto com fotos dos três museus, o famoso "Vinte Poemas de amor e uma cancão desesperada", em espanhol, e "Viaje a la poesía de Neruda", de Bernardo Reyes, que percorre as casas em que o poeta já morou, contextualizando sua poesia ao do ambiente em que viveu em toda a vida.

Infelizmente, não é permitido fotografar o interior do museu.




Meus tesouros



Após o passeio, vale uma caminhada pela praia em frente. O Pacífico, nesse trecho, nada tem de pacífico, as ondas arrebentam forte e há muitas pedras. Sem contar o frio da água.




Há um café no local, onde pode-se curtir o visual do oceano bravio ao lado








Vídeo retratando o mar em frente ao museu

sábado, 15 de novembro de 2014

Queria ser uma celebridade da internet


Curtia tudo, seguia a todos, comentava qualquer assunto. Era o rei do compartilhamento. Subiu um vídeo no youtube. Fez um vlog, um blog e até faria um fotolog, não fosse ultrapassado.

Tudo o que conseguiu foi estourar o limite de consumo da franquia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Injusto


Vivem vidas de condenados os que dormem o sono dos inocentes

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Declamada



Toda mulher é poema

a ser descoberto

um verso a ser dito

Sempre

ao pé do ouvido


Joakim Antonio

Imagem: Ear and neck by Kbraaten

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

QUARTO CRESCENTE

Outubro. O comércio não olha a meios, é oferecido aos amigos Feio e Bonito o jantar. Antes, juntam-se para fazer um duelo publicitário, festeja-se o quarto crescente.


domingo, 26 de outubro de 2014

Milagre eleitoral

Quando eu era criança, achava o feio, bonito: gostava de ver, nos dias das eleições, as ruas cheias de papéis, os santinhos dos candidatos. Chegava até a janela da minha casa e via aquele cenário, outrora tão familiar, agora salpicado de cores. Quase um carnaval e seus confetes.

Evidente que não era a sujeira o que me agradava. Era a situação em si. Para as crianças tudo que é atípico tem o frescor de uma descoberta. Aos meus olhos, dia de eleição era quando as ruas amanheciam enfeitadas.

E, curioso, eu ficava pensando: como as ruas ficavam daquele jeito? Na noite anterior à eleição, a cidade normal; amanhecia e era papel para todo lado. Quem fazia aquilo? Como era? Eu ficava imaginando - chegava meia-noite e a rua ficava lotada, candidatos com ternos e seus cabos-eleitorais com bonés e bandeiras, cuidadosamente deixando santinhos pelo chão, para convencer o eleitor descuidado que saísse de casa sem saber em quem votar.

Certa noite, já adolescente, eu voltava para casa na madrugada anterior a uma eleição. A chuva e os bares fechados por conta da Lei Seca me deixaram sóbreo o suficiente para ver o “fenômeno” acontecer. Vi carros parando em esquinas e seus ocupantes lançando a papelada para fora. Jogavam e aceleravam até a rua seguinte. Som de motor e rádio FM. Simples, direto e, o pior, sem glamour algum.

Claro, foi uma decepção, devastou as memórias imaginárias que perduravam da infância. Mas foi bom, em todo caso: aprendi que emporcalhar as vias públicas é feio, e o feio, ao menos nessa caso, não é bonito.

sábado, 25 de outubro de 2014

Paraíso

Foto: Tony Pérez



Não precisei ir
tão longe
para encontrar
o paraíso

Achei-o
no céu da tua boca

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Vila de São Jorge
















O coração já bate diferente quando começa a estrada de terra




São Jorge adoraria essa casa criada por guerreiros

que o adotaram como exemplo maior





Chão de terra

Paredes e mentes coloridas






Vila de São Jorge



Me deixa



tão




são 








Singela homenagem à Vila de São Jorge, porta de entrada do Parque da Chapada dos Veadeiros (Goiás)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Antes do fim chegar

Quando eu morrer, queimem meu corpo e coloquem as cinzas nos canteiros com plantas da casa em que cresci na aldeia. Antes, bebam, riam, lembrem das nossas histórias e toquem umas canções. Quem sabe alguma coisa do Paulinho da Viola, do Chico Buarque, da Legião Urbana, do Pearl Jam. Façam uma mistura grande, uma farofada mesmo, essa mistura toda que me formou.

Esse é meu desejo. Se puderem cumprir, que seja. Espero não dar muito trabalho. Se não puderem, entenderei também. Ou não, já que morto, em tese, não teria condições de relativizar a situação. Mas fiquem tranquilos, não atormentarei ninguém, juro.

Minha avó, por exemplo, sempre disse querer ser enterrada de pé. A morte, rápida, um mês entre a descoberta da doença e o fim, atrapalhou as coisas: ela não falou sobre isso, os filhos fingiram que esqueceram. No enterro, não havia meio de enfiar o caixão deitado na gaveta. Levou uns 40 minutos até que muitos homens, além do coveiro, esforçados, conseguissem resolver a situação. Parecia haver dedinhos invisíveis segurando. A gente até riu de tudo isso, como uma forma de aplacar a dor.

Tenho pensado na morte ultimamente. Mais que o normal. Ver tanta gente boa morrer, próxima e distante, mas conectada de alguma forma, faz isso. No fundo, depois de várias conexões possíveis, volto sempre à mesma questão: é estúpida a morte. E como é.

A mãe de dois amigos queridos foi atropelada por uma bicicleta lá na aldeia. Na rua de casa. É a cena da qual provavelmente riríamos. Como sempre fizemos, aliás, rindo das nossas desgraças, dos fracassos, das nossas tragédias pessoais, coletivas e individuais.

Só que dessa vez não teve graça. A estupidez dela, da morte, veio rasgando. E o atropelamento de bicicleta virou morte cerebral. Em horas, dias, quase uma semana, não sei e nem importa. Estúpida a forma, estúpida a morte.

Nunca sei o que pensar nesses momentos. Como a gente consola alguém diante de uma coisa assim?, o que a gente diz?, não sei, não sei. Acho que a gente só deve chorar, a única forma de expressão sincera desse sentimento esquisito que vem. E, claro, dizer que tá ali, por perto, e pras pessoas ficarem firmes.

Mas é maior que isso. Fico pensando em quantas vezes na vida, nos próximos anos, vou ter, teremos nós, que nos deparar com situações, se não iguais, parecidas. E como em todas as vezes que penso sobre isso, reforço a certeza de que não estou preparado pra lidar com a morte.

Nem sei se alguém está. Só que a gente perde as pessoas sem estar mesmo. A gente recebe o soco, empurra o soco de volta e tenta transformá-lo em lágrimas e lembranças. Às vezes, literatura ou música.

Um pouco por tudo isso, voltar à aldeia é sempre pensar em saudade. E só aumentará, penso, essa sensação. Porque as coisas seguem, a vida segue, as pessoas envelhecem e morrem. E nem sempre envelhecem antes de morrer.


A verdade é que escrevi tudo isso pra falar as coisas de sempre, que a gente tá cansado de saber, que dói, às vezes, que a perda é foda, sempre. Então desculpa os clichês que estiverem soltos pelo caminho, mas escrevi pra falar, porque a gente precisa falar, precisa colocar pra fora essa coisa meio angustiante que toma a gente quando alguém morre. Não importa se próxima ou distante, tenho aprendido isso a cada dia, a morte de alguém querido, pra nós ou pros nossos queridos, é sempre uma força quase inconsolável que esmaga tudo por dentro.

Outra verdade, desculpem, não era só uma, é que escrevi pra lhes pedir o impossível. Amigos e amigas, não morram. Não, por favor, não morram. Vamos fazer o seguinte: vivemos todos até os 100 anos e, depois disso, começamos a evaporar devagarzinho.

E, se por acaso não for possível mesmo, que a gente possa se encontrar mais antes do fim chegar, porque a gente não sabe nunca quando ele vem, e ouvir mais músicas juntos e rir mais de tudo, de todos, dos outros, de nós, dos riscos. Da vida. Fazer as coisas que sempre fizemos, uma farofada mesmo, como sempre, essa mistura, essas grandes misturas que nos formaram.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Zen Blues No Blues


onde
não é um lugar
é qualquer lugar
que não aqui
em qualquer momento
que não agora
where
is not a place
it’s anywhere
but here
any time
but now

...e de que cor são teus blues?

...and what color are your blues?
.

domingo, 12 de outubro de 2014

E por aí?


A vida por aqui anda meio conto, nada de poesia.
Mas, pelo menos, não está crônica.

sábado, 11 de outubro de 2014

Caboclos



Acordo com sede
de saberes antigos
mas cadê meu povo
suas danças e risos

Olho tudo em volta
eles não mais estão
leio em suas pegadas
que saíram sem direção

Sinto a presença
de um sábio índio
ele traça uma seta
apontando o destino

Sou um Pedra Preta
ele diz chorando
Agora somos um
diz me abraçando

Sumo desta terra
por alguns momentos
vejo todo meu povo
como seus tormentos

Quando abro os olhos
ponho-me a chorar
a pedra ficou comigo
e ele do lado de lá


Joakim Antonio



Imagem: People by Sasje by DAZ-3D

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Fuga

Sempre que sonhava com cobras constritoras bastava um salto, preciso, para escapar. 

Foi a mãe que o encontrou enforcado junto à cama.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

LUA CHEIA

Setembro. A brincadeira passou a ser explorada pelo comércio, está marcado novo duelo para a Lua Cheia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Belo Horizonte à meia-noite

Vultos se movem nas sombras. Espectros dão risadas, que ressoam malignas envolvidas pelo silêncio de todo o resto. A urbanização mineira funciona e, na madrugada, não há trânsito.

Um sujeito surge e balbucia coisas inaudíveis. Esforço-me numa leitura labial. Fracassada. Ele segura um boné, parece se tratar de uma oferta. Faço minha cara de “foi mal, não tenho dinheiro”. E é verdade, do contrário estaria num taxi.

Seria um boné roubado? Ou uma artimanha para me roubar?

À (meia-) noite, todos os gatos são pardos (assaltantes em potencial), diz a sabedoria do assistir-Jornal-da-Globo-tomando-chocolate-quente-enquanto-o-mundo-lá-fora-é-todo-malvado.

É verdade, eu corro risco. Preciso ficar alerta. Consola-me o fato de assim ser a vida, por todos os lados, perigosa. Mas o maior dos riscos, ainda acredito, é morrer de tédio.

No céu não há estrelas, apenas prédios obscuros. Tampouco vejo carruagens ou automotivos dos anos 1920 para me transportar para qualquer “Era do Ouro”. Dou-me por satisfeito em adentrar o primeiro ônibus que me levará para casa. 

Vida pé-no-chão. Tudo que reluz geralmente é ouro de tolo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quando cai o inverno

imagem: sanxian

A cada adeus
sentia
a mesma dor antiga
aquela canção tocando baixinho,
um quase lamento
por me deixar partir,
por voltar a ser só.
A cada adeus
a melancolia
invadia devagar
inspirando e expirando, serena,
um quase vazio,
pronto para me invadir,
sem pressa de estiar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Vazio

O não nascido é o não morto
melhor estado possível
unidade de todas as potências
eterno e impassível
vazio

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A geladeira desligada


As janelas fechadas faziam entrar uma luz difusa do fim da tarde. Não havia ninguém vivendo ali. Os móveis também já não estavam.
A casa vazia se percebe pela geladeira desligada, pensou. Olhou por uns segundos antes de abrir. Aberta, contemplou as prateleiras vazias. Nenhum sinal de vida.
Fechou os olhos e tentou sentir o cheiro da comida no fogão. Não havia cheiro ou fogão. Só um espaço vazio.
Insistia na procura. Procurava por alguma coisa esquecida. Havia muitas.
Pequena, puxou o banco e subiu. Abriu o armário: pratos, copos, um escorredor. Tudo empoeirado. Pensou que o armário não impedia a poeira do tempo. Concentrando-se de novo na busca, não achou nenhum eletrodoméstico.
Não estava lá.
Desceu do banco e procurou embaixo da pia.
Um liquidificador. Pegou, organizou as coisas sobre a pia e ligou na tomada. Apertou o pulsar.
Pulsava.
Pensou em colocar gelo, cachaça e suco de frutas. Mas a geladeira estava desligada, não havia gelo. Cachaça, só no bar da esquina. E suco de frutas nunca havia entrado naquele apartamento.
Imaginou um milkshake. Mas lembrou da geladeira desligada. E leite, se houvesse, estaria azedo.
Melhor seria colocar ali a geladeira desligada, que parecia tão diferente iluminada por aquela luz difusa. Ou todas as suas mágoas. Sem escolher muito, decidiu pelas mágoas: a geladeira não caberia. Teve medo de transbordar. Apesar disso, ligou o liquidificador.
Mas não aconteceu nada.
As mágoas não poderiam ser trituradas. Até tentou.
Então, decidiu enfiar a mão na lâmina que girava.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Indispostos


Os opostos se atraem; E se enganam
Mas suas ações, sinceras, os traem

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mantra pessoal




Há um mantra perfeito, atrelado ao guerreiro
Há um mantra de amor, atrelado ao de paz
Há um mantra do sexo, atrelado ao instinto

Há um mantra do tempo, conforme a Lua
Há um mantra poderoso, forte e gostoso
Há um mantra animal, sussurrado e uivado

Há um mantra natural, de lábios nos lábios
Há um mantra grunhido, descendo e subindo
Há um mantra divino, que te leva aos céus

Há um mantra secreto, para cada um...


Joakim Antonio


Imagem: A mantra of peace and happiness tattoo by Meatshop tattoo

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

ALVEJAR A LUA

Agosto. Ninguém espera o duelo mas, os agora amigos, combinam defrontar-se. Toda a gente vem para a rua, vê-los alvejar a Lua.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Selfie

Esticou o braço, apontando o celular para o seu rosto. Olhou para o lado. Apertou a tela. Click.

Ergueu o celular, fez um biquinho, de leve. Apertou a tela. Click.

Mudou o celular de mão, balançou os cabelos e os jogou no rosto. Pôs a língua para fora, no canto da boca. Click.

Pôs óculos escuros no rosto. Click. Mordeu os lábios. Click. Fez carinha de “to chupando limão”. Click. Pôs um pirulito na boca. E click.

Visualizou as fotos na tela. Se curtiu. Aí, postou tudo no feicibuque. E esperou os outros curtirem.
Mas pouca gente se manifestou.


Ficou triste. Procurou uma frase de efeito para ilustrar sua tristeza. Achou uma da Clarice Lispector.

domingo, 24 de agosto de 2014

Exercício de semântica



Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono
e acordo



sábado, 16 de agosto de 2014

PIT-BOY



Tinha braços de leão,
tórax de touro,
garras de águia,
sangue de fera.



Só lhe faltava um coração de gente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Senhor, em que posso lhe ajudar?


Ligou para o restaurante.
- Boa noite, senhor, em que posso lhe ajudar?
- Gostaria de fazer um pedido.
- O que o senhor deseja?
- Eu queria um amor verdadeiro.
Uma pausa longa. Ele esperou por uma resposta atravessada. Ou por compaixão.

- Não encontro no sistema. O senhor poderia fornecer o código do produto?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

...







Chorou ao identificar o corpo. 
Ao pegar o lenço sentiu, ainda no bolso, a faca.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Baleado


Quando chegava ao quarto cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas; Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Eterna



A poesia é metáfora, símbolo, pergunta e resposta em si mesma, procurando cada vez mais folhas para morar. Pode ser que um dia algo pare, mas ela nunca.


Joakim Antonio



Imagem: Eternity by Kalessaradan

quarta-feira, 30 de julho de 2014

FEITO ESTÁ

Julho. Feio está… o duelo todos os meses é adiado. Os contendores são já vítimas de gozo público, ficam amigos.


sábado, 26 de julho de 2014

Análise Crítica II

- Olha, filho, veja bem. Seus textos não são ruins. Mas ...eu não sei. Acho que você poderia mudar seus temas. Escrever sobre coisas que as pessoas querem ler. Não sei. Talvez escrever sobre coisas fofas. Sabe?

- [Ele coça o queixo, olha para os pés – precisa cortar as unhas dos dedões - põe as mãos nos bolsos da calça] Coisas fofas, mãe? Bom... Eu poderia, então, escrever um diálogo com filhotes de tartarugas... É. O que você acha?


- Uhn... Filhotes de tartaruga. Eu acho que coisas fofas talvez não seja o seu filão. Vamos pensar em outra possibilidade.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A face por trás da máscara

Ilustração: Ivelin Trifonov



A chuva, fraca, respingava morna em seu rosto magro, de semblante abatido. Sentia o calor embriagar-se até o coração. Sem delongas fugia. De algo, de alguém e de si. Percorria a penumbra de uma rua assaltada pelo pavor da madrugada. Uma noite fragilizada pelas badaladas de horas vagarosas e impertinentes. Sob as gotas pesadas rastejava os pés sem rumo, sem direção, carregando em suas mãos a culpa pelo ato desvairado e descomedido.

O coração palpitava quase sonolento, sofrido pela tensão suscitada há pouco. Tremia com o frio que preenchia o íntimo. As nuvens se recolhiam como uma cortina fechando o espetáculo. Conclusão épica, mas trágica; um desfecho como o fim de uma leitura, onde o fim não agrada; de um dia retirando-se, em trovoadas, para a noite comparecer. Era o fechamento de um ciclo. Abrupto. Revelador. Assustador. Seus dedos convalesciam diante do que restou. Não havia alento. Só dor.

Os passos lhe conduziam até o mirante. Mas ele sentia ir ao inferno. Mais do que quando vira. Os nervos explodiam. Mas não como antes, em cólera. Agora era de impotência e apatia. Era o resultado de um ser acometido pela adrenalina de vestir o rosto com uma indelével mácula. Sua feição era outra, era a de alguém escalpelado, com a máscara caída, com outra face construída por um vil momento; um fatídico acontecimento que o traumatizou.

Parou diante da sacada do mirante. O rio brilhava em reflexo com a luz estrelada da noite. Os olhos culposos refletiam a dor de outros olhos que o fitavam estáticos, chorosos. A imagem que ali ficaria eternizada. Seu choro era contido, engolido pelos soluços fortes, impávidos e sem ritmo. As estrelas não entenderiam o alcance de sua consternação. Faltou hesitação e medo, um receio que o impedisse. Mas ao vê-los, ao flagrá-la, o ódio permeou suas veias, desabando qualquer máscara humana que ainda lhe cabia.

A cena se repetiu pela sua mente em segundos. A culpa que lhe abraçava tinha toneladas. Arrependera. Sua nova face, antes oculta pelos demônios, formou-se no sussurro de um peito amargo, de uma tentação malévola, atendida na pressão da dor. Com um tiro matou o amante. E em segundos que pareciam séculos, matou a mulher de sua vida logo após, a quem lhe contemplara como se pedisse misericórdia. Segundos horripilantes para quem caiu em si minutos depois ao ver o sangue de sua amada. Abraçou-a em uma fúnebre despedida e disparou em fuga, ensandecido.

Agora diante da sacada do mirante, chorava pela face do desespero. Ouvia ao fundo a sirene de polícia. Nenhuma prisão seria mais dolorosa do que a imagem que ficara de lembrança. Num ato consciente, mas vestido em loucura, apontou a arma em seu próprio rosto. O cano entre os olhos lhe afundava na alma. Não hesitou. O som ecoou pelo horizonte. As estrelas cintilaram, testemunhas de seu próprio julgamento. O rio levemente se ondulou e pássaros próximos, assustados, alçaram voo para longe. E o mundo viu um homem se matar pela face que ele nunca queria ter desmascarado de si mesmo: a da vingança.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens
alterando a geografia do ar

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Mundanoso

imagem: eXcer

Guardo aqui
neste canto
acordes
antidepressivos
e ameaças de suicídio.
Nas gavetas bolorentas
pupilas dilatadas
psicose, drama
e chás de cadeira.

Milonga

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ode aos clássicos


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Fonte da foto de Edgar Allan Poe: wikipédia